platô

Dois mais dois dão quatro
aqui e na Polinésia;
meu corpo curvado
suporta somas bem maiores,
mas, diariamente,
aprender pesa
e sigo

Quando acordo
a cor do espelho
não difere.
Difusa,
ela fere quem eu pensei
que era
ao acordar.
e sigo.

Ainda firme
forte
um mundo à frente;
as portas são portas
apenas pra quem
não entra:
consigo!

Nado num lago
de aridez
de notas dez
de reforço,
rascunho
e borracha.

provo
e me aprovam,
recuso
e me apavoram
com os prazos
e as proezas
para ser alguém

sem olhar
aquém.

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cortina

beira.

(uma caixa
enorme;
nela, água,
seres alados
arriscando
morrer
ou nadar.
não há fogo
nem afago,
afogam-se.
asas encardidas
batem,
remam,
param…)

/…/

gelo.

Ele pergunta a ela
se ela viu as formigas
se ela o viu
se ouviu
o que ele disse
– que a amava.

Ele pergunta
se ela vai ficar.
Ele perde tanto
tempo
costurando
uma roupa de frio
pra proteger
do inverno que demora
o exato tempo
da costura.
pronta a roupa,
o inverno acaba.

/…/

sarcófago.

o humor é líquido
o mundo também
a relação não é.
pedras são pedras
mesmo distintas:
mármore
e cascalho
abraçados naquele
local
envoltos em
pessoas
água e
formigas.

/…/

voo.

será que
sem ele aqui
o mundo giraria
mais denso?

quando fecham
os olhos, as pessoas
não pensam no
que pensam,
elas fogem um pouco
como quem olha
um vizinho chato
pelo olho mágico
e mantém-se
silencioso
na cozinha.

/…/

sigla.

uma ponte não une,
constata a separação,
celebra a distância
e ri.
uma ponte aponta
para um jogo de palavras
ruim,
para um casal
numa piscina,
e ele chora
por furar o dedo
na roupa
que costurava
demoradamente.

 

Moebius

nessa casa onde eu vivo sozinho,
a surpresa é que aqui moram todos.
o espelho me mostra o vizinho,
compartilham-se os copos e os rodos

olho atento a quem quer que seja
não perdendo de vista o avistado
o braço abraça, a alma almeja
e cima, baixo e dentro são um lado

já fui louco, bobo, fui um rei
já fui tolo, sábio e profeta
já andei, já nadei, me afoguei
cruzei estrada imperfeita e correta
e os verbos que fiz, conjuguei
entendendo sempre que a meta
era nunca a de calar, mas calei
inclusive, um dia fui poeta,

mas sou de um plural tão distante
de onde eu devia caber
que um livro esquecido na estante
sabe mais do que eu sobre ser.

Estanho

Uma estrela
nunca será mais
do que uma pedra,
um incêndio
e a distância.

minhas roupas,
meus vícios,
meu rosto
vincado,
isso e muito mais
são uma porção,
um como que saco
que levo das compras
e cede
jogando inúmeras
frutas
ao chão.

nesse minuto
em que se esbarra
no tempo,
e ele passa,
pincela
e arranha,
sou o terror

– senhor –

o ter
sem ser,
sozinho.
Sou a pedra
o incêndio
e a distância,
mas não estrela,
que estrela ecoa
e morre

eu fujo.

1/4

Beijo seus lábios
Suas coxas falam
Com meus ouvidos
E o mundo é ali.

Abro suas pernas
Entre ambas, o convite
Entre ambas, o gosto
Entre ambas, entro
E mergulho.

Ali é onde nós
Falamos em silêncio
Língua e lábios
Sem palavras;
Movimentos e
Texturas
Ruas num corpo só
Eu trovejo
Em tributo
E atribuo a ti
O gozo.

Seu corpo treme
Só agora não é
De frio

Seu corpo queima
Não há febre
Nem doença:
Há a oportunidade
De uma ilha

E eu sou mar.

Quando acaba
Seu gosto fica
Como a memória
De um prato favorito
Como a lembrança
De um cheiro
Que não sai de roupa
Um cheiro nu
Que nem você.
Quando acaba
Não termina
Ainda te beijo
Os lábios
As coxas
Ainda me contam
Segredos
E eu mergulho
De novo
Entre
De novo
Entro

E você dança
Como dançam deuses
E eu te adoro
Como adoram a deuses
Devoto
Te devoro
Sem medo
De estar tão
Perto da sua
Boca.

Eu vou morar
Aqui
Sem hipérbole
Passar dias
Até decorar
Seu gosto
E andar por você
Sem tatear.

Genérico

Eu era um Deus velho
dos tempos que não voltam.

O que eu vou esconder afinal
Se tudo que se guarda num baú
Não muda o fato de que ele
Ainda é um baú
E sabe disso?

Não importa a si o precioso
Conteúdo
Vai-se a jóia
Vem o ouro
Vai-se o ouro
Fica o baú.

E a jóia continua sendo jóia
O ouro não se desfaz de seu mistério dourado
Cada um ainda tem seu preço
Elevado.
O baú? Continua com sua tranca
E a ele não cabe o que
Guardam em si
Ou de si retiram.
A ele
Cabe ser.

Eu me pergunto
Se quando ninguém vê
Ele lamenta o fato
De não conhecer aquilo
De que ele está repleto
Ou se só ignora
O estar vazio
Ou cheio

Há final
Para isso?

Sudário

Velho, o tempo já nasce
Dobrando a esquina da vida
E é como se ele falasse,
Se contasse pra nós da ferida
Que é aberta pra ele fechar.

Vestido, o tempo já chega
Dá os primeiros passos no mundo
E assim, pela mão, nos carrega
E nos conta um segredo profundo
Dizendo que é pra não falar

Que o tempo já vem com saudade
Uma falta que é meio dormente
Que nem ele sabe se é verdade
E que a falta que o tempo mais sente
A que deixa seu corpo doente
É a de ser
só uma vez:

gente.

quase poema

De hora
em hora
esse ponteiro
me aponta
como um lápis
sem papel
pra encher
com o pó de
sua essência.

A cada momento
passado
o tempo me
abraça
como se ignorasse
que tenho ossos
e que dói
apertar como ele aperta
e que dói
ignorar como ele
ignora quando passa
só pra repetir
“o que você
me conta de novo?”

Eu acordei três
vezes
mas só fui
dormir duas
e é nessa última
acordado
que me testo
e belisco
o braço
pra ouvir
um “ai!”
de outra boca

Eu enfim
descubro
o tempo:
ele morre de frio
e fala: eu
não sei
se você sabe,
mas eu ainda te
espero.
uma esfera
falha
sou eu
quadrado e vil.

Eu vejo
árvores caídas
que não morreram
de pé
como me disseram
que elas fariam

E me pergunto
se vai ser assim:
um final diferente
do ensaiado
ou se vamos,
ambos,
respeitar nossas marcas;
eu preciso que
você dê o texto,
quando te escrevi,
ao menos,
construí assim,
pra que,
no fim,
você fizesse sentido
onde eu não faço,
e eu fizesse
valer
o que
não disse
e você já sabia.

Até lá,
os meus medos
são famosos,
e você os conhece
todos,
conversa com eles
e ri

De…?

De hora
em hora
esse ponteiro
me aponta
como um lápis.

 

(um ENORME obrigado a Danilo Crespo, pela paciência em me ensinar a arquitetar um poema! Para mais ideias brilhantes desse poeta: https://docedeclinio.wordpress.com/)

felino-chumbo

Não faz bem,
Te cobra e te afeta,
Abocanha: o bote
Afunda e afoga.

Um deserto
Estranho te espera
‘Que dê certo’
O ‘spírito roga.

O futuro
Medonho calculista
Nunca, de fato, está
Presente;

É um muro
E sequer dá uma pista
Um tapete descosturado
Na mente.

É a pele gritando
Que quer mais,
O oriente sempre
Insatisfeito.

E seu cabelo
Onde cavo a pás
Pra mergulhar
No esconderijo
Perfeito

Atroz
Atriz
Atrás, por um triz,
Na coxia nos vemos.

padrão

Queria saber em que momento
Eu me tornei esse poço
Que não sabe mais
Se aquilo lá longe é o fundo
Ou o céu.

Uma menina passa pela
Rua e me olha
– É rápido –
Quando volto o olhar
Tudo parou no exato,
No momento antes do ato,
E só eu me mexo.
Diferente,
Finjo que não me movo também.

Você vem sempre aqui?
Oi? Eu? É… Eu moro aqui
Eu corro aqui
A quilômetros distante
De mim
Mas você leva tudo isso sempre?
Olho pra trás e pro chão
Tudo o q…
Eles voltam a se mexer
Em volta de mim

E vão pra todos os lugares
E pra todos os tempos
Senhoras
Sem relógios
Me elogiam a coragem
A cor age em meu rosto
E eu não suporto

Não há cuidado
Não há disfarce
Há conversa e vontade
Nesse turbilhão
E conversa sobre vontade
E vontade de conversar
Nem que seja
Sozinho
Eu, comigo,
Não consigo.

Enfrento o problema
De morar num círculo
Não me apego a nenhum canto
Não importa o som
(talvez, se eu me fizer de surdo,
Se eu ignorar a pergunta,
A resposta… Não)

Olha, eu queria ficar,
Mas tem gente me esperando/
Você mora sozinho!
Pois é, eu me esqueci lá
Não sei nem como cheguei
A gente se distrai
E quando vê…

Tudo bem,
Eu preciso dormir também.
Dói?
Só se eu fechar

os olhos.